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segunda-feira, 19 de março de 2012

Afinidade cultural



Oi gente!

Nossa semana começou muito inspiradora e deliciosamente alto astral! Ontem participamos do encontro cosplay Kawaii, em Vitória e voltamos pra Perocão com caraminholas na cabeça... Zombieplay!

Os motivos são reais, em fevereiro A Noite do Chupacabras foi recebido com entusiasmo Festival de Cinema Fantástico no Japão; não é por coincidência que nossos monstros usam roupas de borracha e sim inspiração no clássico cinema japonês; e a influência de culturas tão distintas que exerce fascínio nos dois lados do mundo, ocidente e oriente.  

E apesar de fundamento e estética diferentes, há entre o terror e o cosplay certo grau de parentesco, que os uni de forma quase umbilical ao universo da fantasia − A Mãe de todos! Deve ser justamente por isso que nunca fomos convidados para simpósios de física quântica, não rola uma química legal...

Rodrigo Aragão no cosplay kawaii conversando sobre produção de terror 


Já que precisamos trabalhar que seja divertido! A maratona durou o dia inteiro e segundo o organizador do evento, Heleno Lyra, o público foi de 1.600 pessoas mais 200 que não conseguiram entrar porque o local, Praia Tênis Clube estava lotado. Com varias atividades desenvolvidas: concurso de desenho, games, cartas, exibição de animes, performances e muito mais.

Giovanni Coio e eu ocupamos um lugar de grande responsabilidade, a mesa de jurados para o desfile cosplay. A missão era pontuar, de 5 a 10, fantasias e interpretações. Estávamos deslumbrados com o capricho dos personagens. Enquanto isso, o Monstrólogo fazia a cobertura do evento no quadro, repórter por um dia, do programa local, Em Movimento. De onde estávamos não conseguimos acompanhar a reportagem, mas dava pra ver o sorriso escancarado na cara do Rodrigo. O programa Cultura Nativa também prestigiou o encontro.

Em outro ponto a Mayra se desdobrava, ora observando a distância nossas crianças brincando, CarolinyAragão (Machine Girl), Ianara Alarcón (Chii) e Roney Aragão (apoio da produção) − desde cedo catequizamos a próxima geração, ora, atendendo aos pedidos dos clientes no estande Fábulas Negras: DVD Mangue Negro, camisas, canecas, fotos, máscaras, autógrafos, cartazes e agendava a Maquiagem de Efeito Especial.

As meninas Fábulas Negras (Ianara de preto e Carol de óculos) tietando no cosplay  


Assim que o Monstrólogo largou o microfone, logo empunhou pincel e a paleta de tinta. Para deleite de todos que encontravam uma ou outra criatura ensangüentada na multidão colorida. O dia foi muito feliz! Cheio de crianças, adolescentes, jovens, adultos, pais e avós que se permitem brincar. Tudo cabe neste caldeirão! E o melhor, a galera sóbria de bebida alcoólica e bêbada de fantasia.

Ah Queridos Leitores, antes de encerrar gostaria de lembrá-los que o estoque da Loja Virtual diminui sensivelmente depois de ontem, inclusive, acabaram algumas estampas em baby look. Então sejam rápidos, http://fabulasnegras.loja2.com.br/

Na próxima segunda-feira retomaremos o diário de bordo de Mar Negro, nosso terceiro longa metragem. Faz algumas semanas que não conversamos sobre ele, mas guardamos tudo com cuidado e discutiremos o assunto aos poucos. As novidades passam pelo roteiro, produção, locações enfim a estrutura geral do filme. Fiquem tranquilos porque todas as mudanças são apenas com a intenção de melhorar o rendimento da produção.       

Muito obrigada a todos pelo carinho e apoio e, por favor, continuem escrevendo pra nós, seja aqui no blog ou lá no e-mail, aragaofx@gmail.com porque é sempre uma grande alegria receber sugestões e estar em contato com vocês.

Nós também!


domingo, 14 de setembro de 2008

Eu, zumbi



Quem acha que vida de zumbi é só andar por aí atrás de carne fresca, está muito enganado...


Eu, Zumbi é um texto de Giovanni Coio, amigo e colaborador da equipe do Mangue Negro. Nessa crónica ele nos conta como é a vida de um zumbi no mangue...



Eu, Zumbi
por Giovanni Coio, um dia de filmagem para o Mangue Negro.



Chegue cedo.
Esteja preparado.

Oito horas da manhã, um lindo dia de sol, temperatura amena, sábado.
Todos se divertem. Uns na praia, uns nos bares, uns em casa.
Saio de casa levando uma calça, camisa, sapatos, que não precise mais. Tudo velho, como solicitado.

Moro a menos de quinhentos meros da casa de R. Ele havia me convidado para ser participante de um dia de filmagem de seu novo filme. Eu já conhecia o projeto e tinha visto as primeiras tomadas. Claro que topei, - vai ser legal.

Do lado de fora do ateliê de R. numa área coberta, juntei-me à equipe que iria trabalhar na cena daquele dia. Eram maquiadores, formados por R. para preparar os Zumbis, mais os assistentes que davam apoio para a parte de figurino, rango, água. Duas câmeras, Mauricio (Pizza) e Thiago.

Em um semi-círculo de cadeiras, várias pessoas eram preparadas, sentadas, recebiam as primeiras camadas de verniz, como uma linha de produção, eram dezesseis Zumbis. Sentei-me numa cadeira e também recebi verniz na cara e nas mãos. Duas, três, quatro, cinco mãos tocam meu rosto, pescoço e mãos. Minha pele começou a repuxar, os olhos a arder, as narinas sendo invadidas pelo cheiro ácido. É um processo lento, constrói-se camada em cima de camada. Tem que ser convincente. E tem que resistir ao Mangue. Aplicam látex, silicone, trapos. Ali, na cadeira, imóvel, olhos fechados, ouço o burburinho do trabalho que não para.

Pausa para respirar. Cola isso, põe aquilo. Próteses preparadas por R. são habilmente utilizadas para produzir personagens horrendos, assustadores, asquerosos.

Passam-se quatro horas. Uma tortura. Na mesma posição, não pode mexer, não pode respirar, nem pensar.

Após estarmos prontos, fomos para um espaço desenvolver algumas caracterizações de comportamento zumbizístico. Como arrastar a pernas, como andar para um lado olhando para outro, como fazer sons de Zumbi. Como atacar em bando, como revirar os olhos. Em pouco tempo formávamos uma roda tenebrosa, estava muito bom, lindamente podres.

O lanche. Arroz de carreteiro feito por Dona Dalva (mãe de R.).

Todos alimentados, para o Mangue, nosso cenário. Fica perto, menos de um quilômetro, subindo na direção contrária à do mar. O material "material" vai de carro. Fios, lâmpadas, maquiagem, uns baldes de gosma, de sangue... rebatedores, água, mais rango ( a coisa vai demorar ). O material "humano", nós Zumbis e outros assistentes, vai a pé. Uma procissão como essa causaria espanto em qualquer lugar do mundo. Até aqui. Atraiu olhares curiosos e assustados por onde passamos.

- O que é isso? perguntavam.

Mangue, lindo Mangue.

No final da estrada que acompanha o Rio Perocão, junto ao Mangue, tivemos acolhida numa casa, onde havia um ancoradouro que consertava barcos, que nos propiciava acesso ao local desejado.
Nas entranhas.

Finalmente soubemos de que se tratavam os estranhos baldes cheios de coisas, fomos cobertos por gosma, muita gosma, para ficarmos com a bela aparência de Zumbis do Mangue. Recém-feita, estava quentinha, dava certo conforto, cobertos por uma camada de polvilho cozido.???

Devidamente caracterizados, fomos entrando Mangue adentro, atolando o pé na lama, tropeçando em galhos submersos, subindo pelas raízes.

A cena se desenvolve durante a fuga de Júlio (O personagem deve ser devorado hoje) , devemos ataca-lo quando passar por nós.

Mergulhamos na água fria, escura. Para algumas tomadas, um a um, fomos saindo calmamente de dentro d’agua, filmados em close, depois, várias seqüências de perseguição, pulando por galhos, metade do corpo mergulhado, aquela gosma esfriando, a fome chegando, o corpo já doendo de cansaço, frio, já estávamos naquele ambiente há cinco horas. E era um tal de "mais uma, só para garantir", "agora mais um mergulho, vamos".

O céu, escurecendo, o sol, indo para trás das montanhas. A luz esvaia-se deixando as trevas aos poucos dominar tudo, quando ouvimos um "conseguimos a terminamos a cena". Viva!!
Nessa água começamos a nos limpar. Muito difícil, conseguimos tirar apenas a parte mais exterior, a lama dos sapatos, dos cabelos, das roupas, alguma parte da gosma.

Como moro perto, fui para casa de bicicleta, cheguei e fui logo para o chuveiro, fiquei mais de meia hora esfregando com um monte de coisas, saí, sequei-me e passei então a limpar parte da maquiagem mais forte com algodão embebido em óleo de amêndoas.

O resto da maquiagem foi saindo aos poucos, nos travesseiros, lençóis, após uns dias, praticamente não havia mais nada. Nem de maquiagem nem de mim. Não agüentei o tranco e fiquei de cama, a coluna doía como nunca.

Foi quando decidimos que eu não poderia mais fazer aquilo, a "vida" de zumbi é muito dura para mim, então, me tornei o fotógrafo escondido da produção.


Rodrigo filmando na pedra.
Foto de Giovanni Coio